Time is love

Atualizado: 6 de Nov de 2018



Setembro chegou. Ufa! Com uma boa sensação de primavera chegando, isso é, dias mais quentes, flores surgindo e a amoreira enlouquecida! Uma das coisas que mais gostava de sentir quando morava na Europa, eram as estações do ano tão marcadas. E a chegada da primavera era a mais celebrada, claro.

Aqui, os sinais não são tão óbvios, afinal, é possível ter todas as estações numa semana só. Mas se seu olhar ficar mais aguçado e a conexão com a natureza mais direta, você percebe a beleza dos Ipês se exibindo. Primeiro os rosas, ainda em julho, depois os amarelos e por último os maravilhosos brancos. Esse inverno a amoreira parecia que não ia aguentar. Perdeu todas as folhas, ficou pálida. Até começar a brotar, timidamente, e agora está doida, com os galhos tocando o chão de tão pesados com tantos frutos. Já estou selecionando as receitas para variar o repertório. Aliás, vou para a cozinha agora testar uma receita da Renata Constantino Barrella, do blog Goriahuk, com amoras e chocolate. Descobri há pouco tempo esse blog, e gosto do jeito simples que ela compartilha as receitas, a grande maioria de doces,de bolos. E são bolos bem de infância, de vovó. O nome do blog é uma homenagem às suas avós, são seus sobrenomes. Embora eu adore variar os ingredientes tradicionais por outros mais saudáveis - não à toa esse é o tema do livro em que fui co-autora, gosto muito da simplicidade dos seus bolos. Sem contar as fotos, lindas! Dica: siga ela no Instagram, ela posta as receitas lá mesmo.


Minhas escolhas para cozinhar e comer, muitas vezes, parecem incoerentes com essa minha busca por uma culinária mais saudável. Não gosto de nada muito doce, prefiro tudo mais integral, mas também acho uma heresia virar as costas para algumas receitas tradicionais, com farinha de trigo, açúcar, etc. Lembro de uma feira que participei ano passado, em que vendia na mesma mesa, os pães, cheios de glúten e o Livro da Mille, com receitas sem glúten, lactose, açúcar refinado. Isso é minha cara! Fico irritada com as polaridades, com modismos e regras. Vou buscando esse caminho do meio, mais maleável e flexível.

Mas, voltando ao bolo. Sim, ficou ótimo e perfeito porque enquanto fazia, o tempo virou e esfriou. O bolo acompanha muito bem um chazinho e uma colherada extra de geleia de... amora, claro! Na receita original, o bolo é invertido, para as amoras e chocolate ficarem por cima. Mas a superfície do meu bolo ficou tão bonitinha que acabei não virando. E também eu estava sem chocolate, acabei colocando cacau em pó... Na próxima, vou testar com óleo de coco, chocolate e menos açúcar. Esse é um caminho que gosto sempre de fazer: na segunda vez, trocar um ou outro ingrediente. E SEMPRE diminuo a quantidade de açúcar. Para meu paladar, as receitas têm açúcar demais.

A receita pede uma xícara de amoras mas na próxima vou colocar o dobro. Adorei o frescor da frutas no bolo.


Para a geleia que comi junto, cozinhei as frutas com açúcar, limão e um pouco de água. Dia desses atualizo essa postagem e coloco a receita. Adoro geleia e feita em casa é outra coisa! Uma boa maneira de aproveitar frutas que estão passando, ou que você tem em abundância e ela sempre fica menos doce também do que a comprada. Sempre use uma panela com fundo duplo, fogo baixo e tenha tempo para chegar no ponto. Gosto de usar a pectina natural das frutas, como maçã com casca, a parte de dentro do maracujá, suco de limão. Geralmente a geleia chega no ponto quando reduz seu volume pela metade.

Mas o que mais queria falar com essa postagem é da importância em fazer um Bolo. Algumas coisas não podem faltar numa casa, eu acho. E Bolo é uma delas. Não precisa ser trabalhoso, esse inclusive é feito rapidamente no liquidificador.

Acho o Bolo uma das comidas mais amorosas que existem. E em tempos em que se usa bolo cenográfico, de isopor, em festas, em que as prateleiras de supermercado estão cheias de bolo de caixinha, em que muita gente só tem contato com a cozinha pelos programas de culinária da tv... perfume a sua casa e faça um Bolo. :)

Vou compartilhar aqui uma crônica que amo do Antonio Prata e que traduz perfeitamente o que quero dizer.


Time is Honey, Antonio Prata

Poucas coisas neste mundo são mais tristes do que um bolo industrializado. Ali no supermercado, diante da embalagem plástica histericamente colorida, suspiro e penso: estamos perdidos. Bolo industrializado é como amor de prostituta, feliz natal de caixa automático, bom dia da Blockbuster. É um anti-bolo.

Não discuto aqui o gosto, a textura, a qualidade ou abundância do recheio de baunilha, chocolate ou qualquer outro sabor. (O capitalismo, quando se mete a fazer alguma coisa, faz muito bem feito). O problema não é de paladar, meu caro, é uma questão de princípios. Acredito que o mercado de fato melhore muitas coisas. Podem privatizar a telefonia, as estradas, as siderúrgicas. Mas não toquem no bolo! Ele não precisa de eficiência. Ele é o exemplo, talvez anacrônico, de um tempo que não é dinheiro. Um tempo íntimo, vagaroso, inútil, em que um momento pode ser vivido no presente, pelo que ele tem ali, e não como meio para, com o objetivo de.

Engana-se quem pensa que o bolo é um alimento. Nada disso. Alimento é carboidrato, é proteína, é vitamina, é o que a gente come para continuar em pé, para ir trabalhar e pagar as contas. Bolo não. É uma demonstração de carinho de uma pessoa a outra. É um mimo de avó. Um acontecimento inesperado que irrompe no meio da tarde, alardeando seu cheiro do forno para a casa, da casa para a rua e da rua para o mundo. É o que a gente come só para matar a vontade, para ficar feliz, é um elogio ao supérfluo, à graça, à alegria de estarmos vivos.

A minha geração talvez seja a primeira que pôde crescer e tornar-se adulto sem saber fritar um bife. O mercado (tanto com m maiúsculo como minúsculo) nos oferece saladas lavadas, pratos congelados, comida desidratada, self-services e deliverys. Cortar, refogar, assar e fritar são verbos pretéritos.

Se você acha que é tudo bem, o problema é seu. Eu vou espernear o quanto puder. Se entregarmos até o bolo aos códigos de barras, estaremos abrindo mão de vez da autonomia, da liberdade, do que temos de mais profundamente humano. Porque o próximo passo será privatizar as avós, estatizar a poesia, plastificar o amor, desidratar o mar e diagramar as nuvens. Tô fora.


Bolo de Amoras e Chocolate

Receita da Renata Constantino Barrella


1 xícara de amoras

1/2 xícara de gostas de chocolate amargo

3 ovos

1 1/2 xícara de açúcar

1 xícara de óleo de girassol

170g /1 copinho de iogurte natural

2 xícaras de farinha de trigo

1 colher (sopa) de fermento em pó

manteiga, para untar

papel manteiga


Ligue o forno na temperatura média, 180ºC. O bolo vai assar por cerca de 45 minutos. Faça um fundo com o papel manteiga e unte a forma com manteiga. Disponha as amoras no fundo e o chocolate sobre elas.

Coloque no liquidificador: ovos, açúcar, óleo e iogurte. Bata bem, até ficar um creme bem volumoso. Junte a farinha e o fermento e bata o suficiente para misturar. Despeje o creme na forma e leve ao forno. Faça o teste do palito para retirar do forno e espere uns 30 minutos para esfriar e desenformar. Sirva invertido, com as amoras por cima e com uma geleia à parte. Essa receita fica ótima com qualquer fruta vermelha!



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